quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Apeadeiros

Agradam-me os aeroportos. Partir, chegar. Abraçamos comovidamente os que chegam, afastamos a saudade de alguém que um dia decidiu atravessar a porta de embarque. Choramos por aquele que vai, antevemos a sua falta, sentimo-la como remoinho que nos consome o pensar. Egoistamente, não suportamos ausências.

É difícil arrumar tudo o que acumulámos durante anos, em apenas uma mala, há sempre algo que se esquece, ou que se deixa propositadamente; não é fácil partir. Pesam-se as contrariedades, somam-se os medos, acresce a vontade de desistir. Não é fácil partir, quando desconhecemos os verdadeiros motivos da ida, quando ainda não temos tempo suficiente para afirmar que o passar do tempo nos disse.

Se considerarmos os aeroportos como um ponto de partida, (mesmo para aqueles que chegam), um (re)começo, perceberemos um dia a necessidade de ir.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Sincronizações...

Vivemos relações fugazes, somos fugazes no sentir, assim o nosso ritmo de vida o impõe. A ambicionada vida moderna, com todos os seus frenesins e panóplias de movimentações tornou-nos saltimbancos das nossas próprias emoções. Alcançamos pouco da arte de amar, tornamos insípidos termos como partilha, vontade, risco, acreditar, surpreender, alcançar. Intensidade e rapidez, é o que se pretende. Se ali se esgotou (ao final da segunda semana) o encanto, soletramos expressões como, "não dá, vamos apanhar o próximo comboio". E se ao invés de apanharmos o próximo comboio, nos limitássemos a ficar apenas por aqui e nos consciencializássemos do que realmente somos, e para onde temos real necessidade de partir. Porquê ir para Lisboa se gostamos mais do Porto? Arrisca-se pouco, percorre-se o caminho mais seguro, aquele que já trilhámos vazes sem conta, e que nos traz de volta a casa, sem sequelas nem mazelas nas mãos e nos joelhos. Os filhos da evolução já não vêem dotados de resiliência, de estratégias que lhes permitam correr o risco de se esfolar nos interstícios do amar.

Harmacavaca...

Termo nascido da distância, da saudade e da vontade sedenta de encontrar alguém que está longe. Por entre risos, e frases inacabadas, acreditou-se no sonho adolescente de sair de casa para, numa qualquer rua da aventura, poder tocar instrumentos imaginários. Ainda assim, a harmónica e o cavaquinho aliaram-se para que os sons acontecessem, desta vez, numa estrada virtual.
Harmónica, é então, sinónimo de gaita de beiços, ou, num patamar menos fronteiriço, harmonia = sucessão de sons agradáveis ao ouvido. A arte que ensina a dispor os acordes. Por seu turno, ao instrumento musical de quatro cordas, dedilha-se a noção de cavaquinho, que no seu diminutivo encontra o termo cavaco = lasca de madeira; lenha miúda, ou no sentido figurativo, conversação amigável.
Pretensiosamente, e ao som das palavras, tomamos como possibilidade uma sucessão de conversas a duas vozes, ou a quatro mãos, como instrumento revolucionário, não daqueles a que elas assistem, mas do espaço interno de cada uma de nós. Os sons, em muitas ocasiões não tenderão à harmonia, mas certamente, à capacidade de dispor os acordes nos caminhos que cada um de nós traça.